Resultado das competitivas


Melhor filme de longa-metragem pelo Júri:

A Mulher Sem Chão, de Auritha Tabajara e Débora McDowell
(Belém/PA, 79 min, 2024)

Justificativa do Júri
Melhor filme de longa-metragem

O filme que premiaremos estabelece um discurso não-usual sobre território, complexificando a nossa relação com a ideia de retorno. Num curso narrativo inusitado, este filme assume contradições, brinca com sarcasmo e cria interconexões entre lugares, acontecimentos e trajetórias. Interroga-se a si mesma. Abre espaço vulnerável e íntimo para outros diálogos enquanto cria ruídos sem remorso, numa colagem de movimentos, projeção de tempo e desenho de cena e desejo.

Este júri premia A Mulher Sem Chão, de Auritha Tabajara e Débora McDowell.

Melhor filme de curta e média-metragem pelo Júri:

Quilombos, de Riane Nascimento
(Comunidade Quilombola Santiago do Iguape – Cachoeira/BA, 9 min, 2025)

Melhores filmes de curta e média-metragem pelo Júri Popular:

Quilombos, de Riane Nascimento
(Comunidade Quilombola Santiago do Iguape – Cachoeira/BA, 9 min, 2025)

Mulher Maracatu, de Carlota Pereira e Dani Cano (Jaboatão ds Gurarapes/PE, 22 min, 2024)

Melhores filmes de longa-metragem pelo Júri Popular:

Yõg Ãtak: Meu pai, Kaiowá, de Sueli Maxakali, Isael Maxakali, Roberto Romero, Luisa Lanna (MG/MS, 93 min, 2024)

Meu caminho até a Escola, de Diego Jesus
(Rio de Janeiro/RJ, 91 min, 2025).

Menção honrosa para curta e média-metragem:

Mopái Pjuta Ãkakje’y – a roça e os alimentos Myky, de Kamtinuwy Myky, Kojayru Myky, Mãnynu Myky, Njãkyru Myky, Njãwayru Myky, Takarauku Myky, Tipuu Myky
(Aldeia Japuíra – Terra Indígena Menkü/MT, 18 min, 2024)

JUSTIFICATIVA JÚRI JOVEM | MOSTRA COMPETITIVA DE CURTAS E MÉDIAS MEtragens

A temática “Terra e Território” nos faz evocar imagens do mundo que nos cerca. Este anúncio premedita a visão que iremos ter enquanto espectadores e realizadores neste festival. O território em suas crises, culturas, belezas e excedências.

O festival projetou uma programação de pensamento que comunica a pluralidade de histórias pertencentes a esta Terra. Nós, enquanto júri, afastados da demanda da curadoria, exaltamos a seleção que permitiu a descentralização do olhar nos momentos que aqui passamos. Brasil, vasto território de tamanho continental, é composto de múltiplas formações culturais, estas que ao serem exibidas aqui demonstraram seu poder de resistência e esperança. Existe uma excelência em assumir a crise, compreender que estamos de muitas formas habitando a ruína. E existe elegância ao permitir visualizar a esperança em telas, para não nos fecharmos para violência e compreender que o respiro também é um ato político. Saudamos também a produção que organizou cuidadosamente todos os eventos. Afinal, produção, por excelência, é um ato de cuidado.

Aos realizadores de “Confluências”, “Uma irmã mais velha”, “Wamã mekarõ opojdwjy (Mistura de Cultura)” “Dois nilos”, “Cavaram uma cova no meu coração”, “A nave que nunca pousa”, “Vollúpya”, “Os sonhos guiam”, “Mar de dentro”, “Arte quilombola, o legado continua”, “Mulher maracatu”, “Nossa primavera começa em agosto”, “Mopaí pjuta ãkakje’y” (A roça e os alimentos), “João de Una tem um boi”, “Pagode do Didi, nosso ponto de encontro”, “Olha a hora de entrar na roda”, “Desconstruindo Lene”, “Talvez meu pai seja negro”, “Pedagogias da navalha: se a palavra é um feitiço minha língua é uma encruzilhada”, “Incêndios” e “Quilombos”, nossa mais vasta admiração, por se disporem a estar aqui, nos elucidando sobre seus trabalhos e mazelas da produção de suas obras, que com cinema de guerrilha entendemos que não é um ato que deva ser subestimado.

Enquanto júri jovem de curtas e médias metragens na X edição do Festival Cachoeira Doc respeitamos o que impactou em cada uma das produções exibidas, os personagens, as histórias que de certa forma nos atravessaram e percebemos como desafio central articular nossa escolha a partir do seu patrocínio que assim como a maioria das realizações do universo da cultura que acontecem no território que conhecemos como Brasil, é financiada por uma instância privada que compõe o hall de iniciativas responsáveis pelo after do fim do mundo, nesse sentido, produzem os contextos problemáticos que muitas das produções que aqui foram apresentadas nos convoca a lutar contra, seja contra os processos de gênese colonial, seja contra os pactos com a hegemonia que ainda são atualizados na nossa sociedade.

Estar neste local abre uma fissura para assumir e ocupar as tensões do mercado cultural sem a pretensão por respostas e conclusões, ao mesmo tempo que sugere diante do impossível, a fabulação em comunidade sobre a travessia pela contradição do mundo tal como conhecemos.

Por sua delicadeza e força ancestral ao retratar os saberes, os cultivos e os afetos que brotam da terra, escolhemos para menção honrosa uma obra que ilumina o papel das comunidades indígenas na preservação dos ecossistemas e no enfrentamento das mudanças climáticas, ao valorizar práticas agroecológicas, relações sustentáveis com o território e o protagonismo feminino como força de cuidado e transformação, também vale destacar seu requinte técnico a partir da montagem que excede o uso de softwares geralmente usados pelo mercado do cinema e audiovisual, nos mostrando que o cinema acima de tudo pode ser um local acessível para quem se propõe a realizar um filme.

O festival acontece predominantemente na cidade de Cachoeira, local que abriga um curso de cinema e audiovisual que em seu histórico vem produzindo filmes que contribuem para o diálogo sobre o território e suas complexidades. Lamentavelmente, a premiação ocorre no mesmo dia em que recebemos a notícia sobre dois jovens assassinados durante a noite passada no bairro do Caquende. Esse contexto que nos assombra, foi um elemento crucial para refletirmos criticamente a escolha de melhor filme enquanto júri. Uma produção que ao mesmo tempo que aborda a violência de modo sensível, também redistribui a responsabilidade sobre o genocídio das populações historicamente marginalizadas para o coletivo e afirma que a justiça possível de incorporar diante desse trauma talvez não seja a justiça social, mas a de Exu, Xangô, Oyá, Ogum, Iemanjá e Oxum.

Em conjunto do contexto político que nos cerca. Se deve elucidar sobre a referência estética e técnica que esta obra apresenta. Para além de sentimentos e transmissão de emoções, o que move a escolha do júri é o conceito narrativo, excelência criativa, produções éticas e técnica cinematográfica.

Quando pensamos dor recebemos uma enxurrada de imagens sobre o assunto que provoca ao fim uma banalização do pesar, que deve ser comunitário. Esta produção sensibiliza de maneira nobre a perda dos corpos negros, filhos de suas mães que também perdem um pouco de si ao noticiarem sua passagem, ao mesmo tempo que afirmam a vida, reivindicam a continuidade. É notável esta delicadeza na produção ética dessas imagens e no discurso tocante que percorre sua denúncia do início ao fim. Das escolhas de roteiro, gravação e montagem é perceptível a excelência material.

Dito isso, a menção honrosa vai para o filme “Mopái pjuta ãkakje’y – (A roça e os alimentos Myky) de Kamtinuwy Myky, Kojayru Myky, Mãnynu Myky, Njãkyru Myky, Njãwayru Myky, Takarauku Myky, Tipuu Myky da Aldeia Jauíra – Terra Indígena Menkü/ MT.

E o melhor filme vai para “Quilombos” de Riane Nascimento da Comunidade Quilombola Santiago do Iguape – Cachoeira/BA.

Adu Santos, Hemilly Araújo e Vinicius Sant’AL