Ciclo de Performances
INFINITOS IMPOSSÍVEIS
INFINITOS IMPOSSÍVEIS surge do desejo de emaranhamento entre documentário e performance, de ampliação mútua das linguagens operada pela pretitude. Performances negras se expandem infinitamente, pois não há como conter o aceno fugitivo. Gestos documentais se reinventam a todo instante tensionando de distintas maneiras a própria ontologia do cinema. É nesta imensidão que se encontram.
A vida negra é um oxímoro, um gesto im/possível no mundo colonial que a une a um imperativo de criação contínua, a obsessões positivas que geram caminhos improvisados, produzindo também os seus corolários estéticos; afetos, sensibilidades e abstrações que dobram o mundo nos permitindo habitar suas fendas. As performances negras se dão sem razão no limite mesmo da própria imaginação, recusando-o por princípio.
De inicio, voltamos a desenhar com os cotovelos instituindo práticas desobedientes na Estação Ferroviária de Cachoeira com Jamile Cazumbá, Dani de Iracema e George Teles, que num movimento de abertura nos convidaram à experimentação do corpo e do traço. Os movimentos que formaram nossa primeira oficina nos direcionaram a composições coletivas, improvisadas e desfigurantes. Durante o festival, outros acontecimentos: performances de Portia Cobbs e Aline Motta e também a mostra especial com obras de Ayrson Heráclito.
O esquecimento forçado move Portia Cobbs, que o move de volta em direção a uma memória que dura não no, mas contra o espaço-tempo colonial. Desde o fim da década de 1980 a artista produz documentários não-lineares, ensaios fotográficos e performances que deslocam e reimaginam memórias pessoais e coletivas; sua ascendência Gullah Geechee, os indizíveis da do genocídio, desejos de restituição, histórias contadas por sua mãe, relatos de um passado hodierno. Rearranjos que deixam ver a sobrevida da escravidão ao mesmo tempo em que enfatizam práticas socioestéticas que desmantelam estruturas que buscam fixar a vida negra.
Há o mundo antinegro e, no seu centro e margens, sua recusa. Formas de vida articuladas pelo mistério produzindo éticas radicais em relação aos modos de ser e saber com o universo. Apesar da morte sempre à espreita e de um horizonte inalcançável de justiça e reparação, estratégias vitais foram criadas, fundamentos de cura atravessaram séculos e mares, presentificando-se nas práticas religiosas candomblecistas às quais se volta Ayrson Heráclito. Alimentar a cabeça, dar de comer a Orí, observar as garças que retornam incansavelmente à Pedra da Baleia; atos que compõem as experimentações documentais do artista dando vazão à inventividade permanente que caracteriza a pretitude.
E é num meneio inventivo de busca pela sua história que Aline Motta remonta a história de um povo em fragmento, de uma gente transatlântica cujos traços no mundo são continuamente apagados pelo Tempo e continuamente refeitos em suas obras. Documentos quase perdidos em cartórios, noticiários de antigos jornais, fotografias familiares, plantas da Casa Grande e toda sorte de arquivos surgem como matéria prima de um processo especulativo em uma obra que se expande incessantemente em suas expressões, encontrando no documentário a potência de reinvenção que a traz até aqui. Cinema é cachoeira e a água é uma máquina do tempo. Mergulhe, ainda que seja impossível.
Matheus Araujo dos Santos
coordenador e curador
por Aline Motta
Rua 13 de Maio, s/n
18:00h
10/06
INFINITOS IMPOSSÍVEIS – A Água é uma Máquina do Tempo

ALINE MOTTA
Aline Motta (1974, RJ) é artista visual e escritora. Combina diferentes técnicas e práticas artísticas em seu trabalho, como fotografia, vídeo, instalação, performance e colagem. De modo crítico, suas obras reconfiguram memórias, em especial as afro-atlânticas, e constroem novas narrativas que invocam uma ideia não linear do tempo. Seu livro “A água é uma máquina do tempo” foi finalista do Prêmio Jabuti 2023.
por Ayrson Heráclito
Galeria do CAHL – UFRB
20:00h
11/06 até 14/06
Ciclo de Performance INFINITOS IMPOSSÍVEIS: “Mostra Ayrson Heráclito”

Direção: Ayrson Heráclito
Funfun | 2012
Brasil
4 min
Sinopse
“Funfun” é uma videoinstalação que aborda morte, transmutação e ancestralidade a partir do voo das garças que retornam continuamente à Pedra da Baleia, em Cachoeira. Acredita-se que as aves são formas nas quais se apresentam sacerdotisas negras como Estelita de Souza Santana, da Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, a quem as imagens prestam homenagem.
Direção
Ayrson Heráclito

Direção: Ayrson Heráclito e Lula Buarque de Hollanda
Irawo Bori: oferenda para a cabeça cósmica | 2024
Brasil
16 min
Sinopse
“Irawo Bori: oferenda para a cabeça cósmica” é um filme que surge a partir da performance Borí, na qual o artista alimenta cabeças em referência ao ato litúrgico candomblecista. Para cada orixá, comidas e fundamentos distintos que compõem um corpo maior em espiral.
Direção
Ayrson Heráclito e Lula Buarque de Hollanda
por Portia Cobb
Estação Ferroviária de Cachoeira (BA)
09:00h
12/06
Ciclo de Performance INFINITOS IMPOSSÍVEIS , Performing Grace [Performando Graça]

+ Conversa com com Portia Cobb, mediado pelo Balaio Fantasma
PORTIA COBB
Portia Cobb é uma artista interdisciplinar profundamente interessada em contar histórias que refletem a dupla consciência da história afro-americana, identidade, memória e esquecimento forçado. Seus trabalhos e pesquisas uniram esses temas a vídeos curtos, ensaios fotográficos, gravações de campo, instalações efêmeras e performances. Portia é professora associada na Peck School of The Arts da Universidade de Wisconsin-Milwaukee: Departamento de Cinema, Vídeo, Animação e Novos Gêneros.
BALAIO FANTASMA
O Balaio Fantasma é um Grupo de pesquisa coordenado pela artista e pesquisadora Paola Barreto desde 2017 na UFBA. O grupo reúne estudantes de graduação e pós de diversas áreas, como artes, comunicação, museologia e letras. Atua na interface entre criação artística e crítica cultural, focando em territórios físicos e simbólicos que resistem a processos de invisibilização ou apagamento. Seus projetos transitam entre intervenções urbanas, projeções audiovisuais, eventos interdisciplinares e publicações, na encruzilhada entre ensino, pesquisa e extensão.







